A Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, localizada na entrada da Baía Norte da Ilha de Santa Catarina, desempenhou papéis diversos ao longo de sua história, desde sua função militar no século XVIII até sua participação pioneira na era das comunicações à distância no Brasil com a primeira estação telegráfica da região.
Este episódio singular aconteceu há quase 140 anos, em 17 de fevereiro de 1888, marcando uma nova fase tecnológica para a Ilha e para o litoral catarinense.
Estação telegráfica estratégica da Ilha de Santa Catarina
Erguida a partir de 1739 na Ilha de Anhatomirim, a Fortaleza de Santa Cruz fazia parte do sistema defensivo concebido pelo Brigadeiro José da Silva Paes para proteger o litoral e a entrada da Baía Norte contra possíveis investidas estrangeiras, especialmente pelo mar. A fortificação — junto com outras como os fortes de São José da Ponta Grossa e Santo Antônio de Ratones — compunha um conjunto que refletia a importância estratégica da Ilha de Santa Catarina no contexto colonial do Brasil.
Sua arquitetura, com muralhas espessas de pedra e edificações distribuídas pela ilha, é um exemplo vivo da engenharia militar do período e permanece preservada até hoje como um dos mais importantes patrimônios históricos do estado.
O marco de fevereiro de 1888: a Estação Telegráfica
No fim do século XIX, a Fortaleza de Anhatomirim entrou em um capítulo inédito: o da comunicação rápida à distância. No dia 17 de fevereiro de 1888, foi realizada a primeira transmissão telegráfica entre a estação instalada na ilha e Desterro — como Florianópolis era chamada na época, sendo então capital da Província de Santa Catarina.
Essa iniciativa foi acompanhada de perto pela imprensa local, como o jornal Conservador, que registrou o envio oficial de telegramas às autoridades. Entre eles, havia uma mensagem destinada ao Presidente da Província, Francisco José da Rocha, enviada por Francisco Berendt, encarregado do Distrito Telegráfico, anunciando a inauguração da estação.
Esse momento representou um avanço tecnológico enorme para a época. A comunicação por telégrafo — inventada pelo pintor e inventor Samuel Morse em 1835 — permitia a transmissão de mensagens codificadas através de fios elétricos, usando o Código Morse, um sistema binário de sinais curtos e longos (pulsos e pausas) associados às letras do alfabeto e números.

O telégrafo e o Código Morse: a comunicação que mudou o mundo
Antes da chegada do telégrafo ao Brasil, comunicar-se à distância dependia de mensageiros ou transporte físico de cartas — processos lentos e sujeitos a condições climáticas ou logísticas adversas. Com a tecnologia telegráfica, tornou-se possível transmitir informações em tempo real, o que tinha grande valor estratégico, especialmente para instalações militares e governamentais espalhadas pelo litoral.
O Código Morse funcionava com sinais curtos (pontos) e longos (traços) que, combinados, representavam letras, números e símbolos. O operador do telégrafo “soletrava” cada mensagem enviando sequências de sinais, que eram interpretadas do outro lado por outro operador. Essa inovação transformou a maneira como o Estado e as forças militares comunicavam-se com centros administrativos e com unidades distantes.
Em 1915, um Relatório do Ministério da Marinha sobre a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, informou

Transição tecnológica: do telégrafo ao radiotelégrafo
Com o passar do tempo e o desenvolvimento de novas tecnologias, a estação telegráfica de Anhatomirim evoluiu. No início do século XX, em 1914, foi construída na própria fortaleza a Estação Radiotelegráfica, uma instalação mais avançada que usava ondas de rádio para enviar mensagens em Código Morse sem a necessidade de cabos físicos entre emissor e receptor.
Essa transformação não apenas modernizou as comunicações da fortaleza como também permitiu a transmissão para embarcações no mar — um salto tecnológico significativo que ampliou a comunicação militar e civil na região. A Estação Radiotelegráfica foi incorporada à infraestrutura da fortaleza, servindo também de residência para o telegrafista responsável pela operação.
Anhatomirim hoje: patrimônio histórico e cultura viva
Décadas depois, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim se consolidou não apenas como um símbolo das defesas coloniais, mas também como um importante sítio de memória tecnológica e histórica. Tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN/Iphan), Anhatomirim passou a integrar o rol de bens de grande valor histórico do Brasil.
Desde a década de 1970, iniciativas de restauração, preservação e utilização pública foram intensificadas, especialmente após a assunção da gestão pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Em 1979, a UFSC assumiu a tutela da fortaleza, ampliando sua função como espaço de visitação, pesquisa e educação patrimonial.
Mais recentemente, em 2025, um novo ciclo de restauração foi iniciado com um investimento significativo do Novo PAC e do Iphan, totalizando dezenas de milhões de reais para conservar e qualificar o complexo, ampliando o acesso público e integrando novos espaços culturais e educacionais.

Por que essa história importa
A história de Anhatomirim e sua entrada na era das comunicações rápidas ilustra como as fortificações da Ilha de Santa Catarina foram mais que construções militares — elas foram núcleos de inovação e estratégia que acompanharam transformações tecnológicas profundas no Brasil do século XIX.
Esse episódio revela a importância de preservar e valorizar o patrimônio histórico como forma de entender a maneira como a sociedade se comunicou, se organizou e se conectou ao longo do tempo — especialmente em um período em que a comunicação à distância se tornava vital para a defesa, governo e vida social da província.
A Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim é muito mais do que pedra e mar. É um lugar onde a história tecnológica de Santa Catarina encontra um marco humano e estratégico — onde, há mais de um século, se escreveu um dos capítulos mais significativos da comunicação à distância no Brasil.
Fonte: Matéria da UFSC