A Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, localizada na entrada da Baía Norte da Ilha de Santa Catarina, é uma das mais expressivas realizações da arquitetura militar colonial portuguesa no Brasil e já teve seu episódio como alcatraz catarinense
Construída no século XVIII, entre 1739 e 1744, durante o processo de consolidação do domínio português na região, ela passou por múltiplas funções ao longo dos séculos, seja da vigilância estratégica das águas ao uso como prisão e base de execução.
O nome da ilha onde a fortificação se ergue é Anhatomirim, que em tupi significa “ilha pequena do diabo”, o que já apontava para a presença de um lugar enigmático e isolado no litoral catarinense.
Este fato reforça antigas denominações indígenas da paisagem local, reforçando como as narrativas europeias e indígenas se entrelaçam na geografia cultural da região.

A fortaleza e o sistema defensivo português
Projeto do brigadeiro José da Silva Paes, a Fortaleza foi erguida para ser o vértice principal do sistema defensivo da Baía Norte, juntamente com as fortalezas de São José da Ponta Grossa e de Santo Antônio de Ratones.
Essa tríade de fortificações visava conter invasões estrangeiras e assegurar o controle dos acessos marítimos à capitania de Santa Catarina, ainda pertencente ao Império Português.
Analogia com prisão de Alcatraz
No início do século XX, Anhatomirim passou por modernizações, ganhando novos edifícios como a Estação Radiotelegráfica e a Usina de Eletricidade, além de armamentos mais modernos, à medida que a tecnologia militar evoluía.
Mas foi um episódio do final do século XIX que marcou profundamente a história da fortaleza: a sua utilização como prisão política durante a Revolução Federalista (1893–1894).
Durante esse conflito que opôs forças republicanas ligadas ao governo central e grupos federalistas no sul do Brasil, Anhatomirim foi utilizada como local de detenção e de execução de combatentes.
Após a rendição das tropas federalistas em Desterro (atual Florianópolis), cerca de 200 prisioneiros foram levados para a fortaleza e submetidos a julgamentos sumaríssimos por militares, muitos resultando em execuções por fuzilamento e enforcamento, episódio conhecido historicamente como o Massacre da Ilha de Anhatomirim.
Esse uso punitivo e isolado em uma ilha de difícil acesso levou alguns visitantes e historiadores a comparar a fortaleza a ilhas-prisão emblemáticas em outras partes do mundo, como Alcatraz, nos Estados Unidos, embora não exista evidência histórica de que esse apelido tenha sido amplamente usado na época.
O paralelo é mais uma metáfora contemporânea para o contexto de isolamento rígido, rigor punitivo e quase impossibilidade de fuga naquela época.
Abaixo retrato do herói da Guerra do Paraguai, o Barão de Batovi que foi executado ali em abril de 1894 junto com outras personalidades da época.

Mais do que um capítulo de guerra, tornou-se um símbolo de como a violência institucional pode se sobrepor à justiça e por que lembrar esse passado é também um ato de consciência histórica.
Um patrimônio que resiste
Com o passar dos anos, a fortaleza perdeu sua função militar. Após a Segunda Guerra Mundial, com os avanços tecnológicos bélicos, as fortificações tradicionais tornaram-se obsoletas e muitas ficaram parcialmente abandonadas.
Em 1938, o conjunto de fortalezas da Ilha de Santa Catarina foi tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reconhecendo sua importância histórica e cultural.
Na década de 1970, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) assumiu a guarda de Anhatomirim em parceria com o IPHAN, iniciando um longo processo de restauração e preservação.
Em 1984, a fortaleza foi aberta à visitação pública após projetos de revitalização que buscavam recuperar as características originais das construções e possibilitar que moradores e visitantes conhecessem de perto esse capítulo da história catarinense.
Hoje Anhatomirim é um símbolo vivo da história militar, social e política da região, um lugar onde as pedras contam não apenas a estratégia de defesa colonial, mas também as marcas humanas das lutas internas que moldaram o Brasil no fim do século XIX e início do XX.
Por que essa história importa
A trajetória da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim desde seu planejamento estratégico no período colonial ao uso como prisão política e, finalmente, à preservação como sítio histórico nos ajuda a compreender como o território brasileiro foi defendido, contestado e reinterpretado ao longo do tempo.
Ela evidencia a importância de preservar não apenas as construções, mas as narrativas humanas vinculadas a elas: decisões de guerra, conflitos políticos e os destinos de pessoas que ali viveram ou morreram.
